Amanda Lyra
Quarta, 03 de julho de 2019, 00:00 h - Atualizado em 03/07, 18:12 h

“Cuidado Ao Ficar Muito À Vontade”, quando se escuta Diego Perin "A Ficha Cai"

Músico da nova boa safra da cena curitibana apresenta trabalho autoral pautado em questões existenciais e sociais

Amanda Lyra:Cultura
Autor: Redação
Foto: Nicolas Salazar

Diego Perin é um daqueles artistas que fazem você acreditar que existe coisas incríveis sendo produzidas por aí, também fazem você pensar sobre questões que incomodam, que esclarecem e que rodeiam a cabeça da gente antes de dormir. Ele acaba de lançar o primeiro full álbum após o fim da Banda Gentileza e chegou com os dois pés no peito com “Cuidado Ao Ficar Muito À Vontade”. A obra, produzida por Rodrigo Lemos, fala sobre temas existenciais e é praticamente uma biografia  filosófica musicalizada, como ver o mundo através das lentes de Perin. Um bom exemplo disso é segunda faixa do disco: “A Ficha Cai”, que ganhou o clipe dirigido por Luana Marinho.

Sobre o clipe Diego explica: “O tema desconstrução é muito presente hoje em dia, ainda bem. Mas ele não é sobre isso. Para mim, desconstrução é um processo lento, solitário, necessário, tijolo a tijolo, no fundo da mente, pro resto da vida. Destruição de amarras, valores preconceituosos, valores opressores. Acredito que isso é fundamental pra questão do posicionamento que a letra aborda. Sair de cima do muro tem muito a ver com destruir esse muro completamente pra não voltar lá pra cima. É possível mudar de ideia sobre as coisas, ainda bem. Mas ter tudo as claras é fundamental. Nada melhor do que ficar no chão pra enxergar os lados pra se posicionar”.

Assista aqui:

 

Ouça “Cuidado o Ficar Muito À Vontade”: https://spoti.fi/2XfNfaU

 

FAIXA A FAIXA

1. O que é que falta

O que faz de nós, humanidade, a coisa mais pavorosa e incrível do mundo?

Isso sempre me provoca horror e maravilha. Tem dias que esse dilema é praticamente insuportável. Num dia desses veio o refrão e, a partir dele, construí tudo em volta. Questões de empatia, justiça social, rotina, pressão, opressão.

 

2. A ficha cai

Essa é super pessoal/autobiográfica. Reflexões que rolaram depois que um amigo me jogou essa na cara: “Falou aí! Sempre foi o mais isentão”. Fiquei mordido. Um pouco antes do processo de impeachment da Dilma e a ascensão dos movimentos de extrema-direita, senti a necessidade de me posicionar sobre as coisas. Porque notei uma galera que era contra tudo aquilo que via como avanço. Quando surgiu o tal do termo “mimimi”. As pautas progressistas me definem. Deixei de ser tão cínico também. Engraçado como a posição de privilégio de ser um cara-branco-hétero-classe-média nos deixa cego para muitas injustiças. Flagro muitas fichas caindo na minha e na cabeça de uma galera nos últimos anos. Me comprometo mais. É sobre isso. Não dá pra desver as coisas. E isso deixa tudo mais claro.

 

3. Não vou buzinar

Acima de tudo, acredito na gentileza como a melhor maneira de relacionamento entre as pessoas. Quantas vezes já ouvi: “você tem que se impor”? Meh, tô fora. Tem uma influência gigantesca de Pato Fu daquela música “UhUhUh AhAHAH IéIé”. Sempre bom escutar os outros antes de tirar conclusões. O assunto paralelo que rola no refrão é sobre não se encaixar no sistema bruto do capitalismo e suas pressões. Você tem que ter uma profissão. Você tem que ser alguém. Você tem que se matar pra ter coisas. Qual a medida do ser humano?

 

4. Heróis

Um belo dia eu percebi que estava levantando da cama sem me espreguiçar. Primeiro me deu tristeza, depois o desespero que sinto quando ouço “Time”, do Pink Floyd. Também me trouxe, de novo, a sensação de que a rotina é uma máquina de moer carne. Temos que estar atentos ao tempo que passa para não desperdiçar, não sucumbir e ficar apático. A vida é curta demais. Sempre evoluir. Tudo é processo, nada é definitivo.

 

5. Treta

Sobre uma conversa que presenciei e de como esses tempos bizarros nos afastaram das pessoas. E acredito que é saudável por um lado. Hoje em dia sei melhor quais são as pessoas que quero ao meu lado. Dane-se bolsominion preconceituoso, machista, homofóbico, conservador! Mas, esperançoso que sou, (não otimista) acredito na mudança e em consequência na redenção. Tem uma pitada irônica sobre isso no final da letra.

 

6. Wallstreet

Um dia, no banho, me veio uma pira sobre especulação financeira. Quando a bolsa cai, de quem é o problema realmente? A economia devia estar a serviço do social e não o contrário. É tipo faroeste. Tem a lei e tudo mais, mas quem está lá especulando na bolsa destrói economias inteiras em nome apenas do lucro. Junto ao corporativismo, acredito ser o auge do capitalismo desumanizado, nocivo. Ou a gente evolui esse modelo econômico ou vamos nos ferrar todos. Pelo menos os 99% aqui da base da pirâmide. Resumindo: é uma sátira das trilhas de filmes faroeste spaguetti, mais Johnny Cash, mais Zé Ramalho, mais apocalipse cristão relacionando-se a esse tema da especulação. Quem são os quatro cavaleiros do apocalipse senão capitalistões de alto gabarito? Essa faixa é onde mostro meu lado mais besta.

 

7. Dias bons

Sou completamente anti nostalgia. Até tenho problemas em sentir saudades. Num belo dia flagrei que tava acontecendo uma coisa muito especial, um clima bom, conversas construtivas. Foi durante uma mini turnê com a Estrela Leminski, o Teo Ruiz e a trupe. Nisso me deu um gatilho de vários momentos legais, desde a infância. E pô! Como os dias bons passam rápido! Essa canção é um desejo pra que eles se demorem um pouco mais. Mas é isso aí, acabou, vamos pro próximo. Peguei um riffzinho que ficava tocando praticamente todo dia na cama antes de dormir e fui fazendo um loop mântrico a la Velvet.

 

8. Agora

Olha a anti nostalgia aí de novo gente! Escuto muito que “no meu tempo que era bom” das pessoas mais velhas. Claro! Eram jovens, cheias de esperança e sonho. Infelizmente a rotina, as cobranças, as responsabilidades, vão esmagando tudo devagarinho e o risco de nos tornarmos saudosos e amargos ao mesmo tempo é gigantesco. Não quero isso pra mim. É meu post-it colado na geladeira, meu lembrete. Tem muito do disco Alucinação do Belchior. Aproveite o presente.

 

O Diego está expondo questões atuais com uma acidez bem peculiar. Isso imediatamente me despertou o interesse em trabalhar nas faixas. Então, captamos a essência dos arranjos criados pela banda, ao vivo, sem nunca dispersar a atenção para o discurso. Sem acomodar muito o ouvinte. E, passado o processo, não sei dizer se existia uma grande tarefa pra desempenhar que não fosse exatamente essa- Rodrigo Lemos

O álbum reúne um "dream team" que o transforma em obra prima sonora e deixa a gente com aquele orgulho de dizer que foi feito na nossa cidade! Se atente a essa ficha técnica:

Diego Perin - Guitarra e voz em todas as faixas

Douglas Vicente - Bateria em todas as faixas. Backing vocal em A Ficha Cai.

Ruan de Castro - Baixo em todas as faixas exceto Wallstreet. Backing vocal em A Ficha Cai.

Vinicius Nisi - Sintetizadoress, Teclados e afins em todas as faixas. Bozouki Irlândes em Dias Bons, Wallstreet e Agora.

Rodrigo Lemos - Guitarra em todas as faixas. Baixo em Wallstreet. Backing vocal em todas as faixas exceto Agora.

Valderval Oliveira - Timbale em A Ficha Cai.

Vitor Salmazzo - Percussão em A Ficha Cai, Não vou Buzinar e Treta.

Leandro Delmonico - Viola em Wallstreet

Bernardo Stumpf e Thiago Ramalho - Backing vocal em A ficha cai.

*Todas as letras e músicas por Diego Perin

Produzido por Rodrigo Lemos

Gravado, mixado e masterizado por Valderval Oliveira

Assistência de estúdio por Isabela Leite

Gravado, mixado e masterizado no estúdio da Arnica Cultural em Janeiro e Fevereiro de 2019

 

Foto: Nicolas Salazar

Mais sobre Diego Perin

Diego Perin começou a estudar música em Igarapava, com 16 anos. Teve dois grupos em Curitiba antes de formar a Banda Gentileza, em 2005, projeto onde tocou baixo e concertina, lançou dois EPs ao vivo e dois álbuns em dez anos de carreira. Com a Gentileza, tocou em várias cidades e festivais como o Psicodália, o Calango (Cuiabá), o Contato (São Carlos) e o Path (São Paulo), show que marcou o fim da banda. Nesse meio tempo também participou do projeto do Rodrigo Lemos, o Lemoskine, onde conheceu o Vinicius Nisi. Tocou brevemente na banda do Leo Fressato. Seu projeto solo surgiu após o fim da Banda Gentileza, em 2016. Após um período de gestação de mais ou menos um ano, quando compôs suas primeiras músicas, se juntou ao Rodrigo Lemos pra gravar “A Dor dos Outros”, single que foi o pontapé inicial do EP “Cabresto”, já com o Nisi nos teclados, lançado em 2018. Nesse meio tempo, começou a tocar com o Douglas Vicente e o Ruan de Castro na banda da Estrela Leminski e do Teo Ruiz. Para fechar o time ainda teve o Jean Machado. Com o boom da Tuyo, o Jean foi cuidar mais da sua carreira e fecharam em quarteto para a gravação do “Cuidado Ao Ficar Muito À Vontade”, lançado em junho de 2019.

*Clipe Bônus:

Discografia

EP “Cabresto” (2018): https://www.youtube.com/watch?v=Dh9wAKpriTM

“Cuidado Ao Ficar Muito À Vontade” (2019): https://spoti.fi/2XfNfaU

Redes Sociais

Facebook: https://www.facebook.com/perindiegoperin/

Instagram: https://www.instagram.com/perindiego/

Youtube: https://www.youtube.com/diegoperin

 

Streaming

Spotify: https://open.spotify.com/artist/32jpI2NVsxiXpl8RAUveus

Deezer: https://www.deezer.com/en/artist/14299755

 

 

* Material enviado por Alets Comunicação e editado pelo meu maravilhoso gosto musical.



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