Tacy de Campos
Quinta, 10 de janeiro de 2019, 00:00 h - Atualizado em 10/01, 00:00 h

Cinéfilos e eu

Cinema: dose homeopática ou mata-leão?

Tacy de Campos:De Bem com a Vida
Autor: Redação
Foto: Divulgação.

Minha esposa adora ver filmes. Se pudesse, assistiria pelos menos uns três por dia. Seu sonho era ser cineasta. Como fotógrafa, ela tem um olhar todo especial quando se trata de capturar imagens. E depois da edição, a mágica acontece e a foto fica esplêndida. Ela já tem tudo pronto em sua mente, tal como os diretores de cinema. Assim trabalha o fantástico olhar do artista visual.

 

Consequentemente, tenho visto filmes com muito mais frequência desde que começamos a namorar. Anoto num caderno, por hábito, os nomes de todos e contando, já passei de 50 títulos, largamente só nesse ano. Adoro a novidade e o aprendizado, acho o máximo colecionar tantas histórias e se envolver nelas. Mas o ritmo frenético de Chrisce é difícil de acompanhar.

 

Não importa se o filme é bom ou ruim. Meu gozo é viver aquele ritual antes do filme. Pipoca, luz baixa, cama feita, pijama, controle pronto pra dar o play. Depois trocar ideias sobre o roteiro e a moral do diretor, “fritando” madrugada a dentro e dias subsequentes. Como um remédio de ouvido que você pinga no ouvido de uma vez só e sente ele penetrando aos poucos.

 

Lá em casa não é bem assim. Por vezes ainda estou absorvendo os fatos de uma história e, num piscar de olhos, já está rodando outro filme na tela do PC. Se bobear, mais um na sequência. No dia seguinte, mais uma dose. As temáticas costumam ser parecidas para manter a linha de raciocínio, mas isso não ajuda. Ao contrário, essa avalanche cinematográfica me causa um cansaço mental absurdo e muita ansiedade. Acredita?

 

Ao fim da maratona, meu cérebro já virou uma geleia: o protagonista do filme futurístico e do Velho-Oeste se encontram, mas o diálogo deles pertence a um noir francês, o cenário é o do Titanic e a trilha sonora é de Femme Fatale. Os personagens se cruzam aleatoriamente, sem respeitar os elencos ou estórias, contrariando as leis do espaço-tempo. Sabe aquele emoji atordoado do WhatsApp? É assim que fico, zonza.

 

Aprecio viver o sonho e a expectativa, antes dele acontecer. Parece que tem outro sabor quando acontece. Tudo o que você tem é a sinopse e a foto da capa. É o que me basta. Nem vejo o trailer, não quero spoiler. Fico imaginando como serão as imagens, projetando cores, quase sentindo os perfumes. A tecnologia 4D na tenra analogia. Esse frenesi do pré e do pós me parece fundamental. A gente entende o que assistiu. Valoriza o que vê e se satisfaz. Tão necessário como a digestão.

 

Assimilar as coisas é um aprendizado e requer tempo. Calma, repetição e silêncio. O silêncio é necessário para pensar. Ninguém medita na balada ouvindo o bate-estaca. Se assim fosse, talvez as pessoas fossem gênios e o mundo estaria a salvo da ignorância.

 

Os cinéfilos garantem que a quantidade não atrapalha a qualidade. Eu admiro a façanha, mas reconheço que está além do meu alcance. E nem é minha meta. Quem sabe um dia eu desenvolva tal habilidade. Por enquanto, uma coisa de cada vez.

 



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