Tacy de Campos
Domingo, 18 de março de 2018, 16:17 h - Atualizado em 18/03, 16:18 h

A curva do Inferno

Reflexões pessoais sobre os últimos acontecimentos que vem chocando o país

Tacy de Campos:Variedades
Autor: Redação
Foto: Divulgação.

Todo dia é dia de sangue. Este início de 2018 começou pesado e me remete aos tempos medievais. Só no Brasil, de janeiro até agora, tivemos que digerir muita carne crua.

Em março, mais uma agressão a professores, dessa vez na capital paulista, que faziam greve protestando contra a Reforma da Previdência dos Servidores Públicos, por melhores condições de trabalho e aumento salarial. Em fevereiro, a intervenção definitiva das Forças Armadas nas ruas e a declaração de calamidade pública no Estado do Rio de Janeiro, admitida pelo próprio governador. No mesmo mês, troca de tiros entre policiais e traficantes no horário escolar no Complexo da Maré deixa feridos e mata um adolescente. Some isso tudo (e tantos crimes mais, sem publicidade) com o mal estar que se instala há dois anos no país desde o impeachment, numa população que foi golpeada por um pulha, cujo nome trocadilha sinistramente com a palavra "temer". Mas até onde sabemos, nenhum grande choque em nenhuma dessas novidades. Já estamos acostumados a não termos mais nem isso, até...

Até a noite de quarta-feira. Dormimos e amanhecemos desde então com o estarrecedor assassinato da vereadora Marielle Franco entalado na garganta. Morta por denunciar a truculência policial na favela de Acari. Era 21h30. Estava em seu carro particular, acompanhada do motorista e da assessora. Outro veículo emparelhou ao deles. Tiroteio. Alvejaram Marielle com 4 tiros na cabeça e o motorista Anderson com 3 balas nas costas. Ambos morrem na hora. A assessora, atingida por estilhaços e levada ao hospital às pressas, sobrevive. Saldo final: 13 disparos, 9 na lataria e 4 no vidro. 7 transformaram vidas em corpos inertes.

Sete tiros assinaram a carta de alforria deste mundo para essa mulher e esse rapaz. Nove tiros decretaram a farsa da intervenção militar no RJ. Nove tiros que assinam embaixo a corrupção e truculência das milícias. Nove tiros que falam mais do que mil discursos inflamados e descaradamente hipócritas do prefeito e do governador do Estado. Nove tiros que asseguram o curso vertiginoso da história deste país, rumo ao mais profundo abismo político e social. Estamos impotentes, revoltados e com medo, muito medo.

Marielle foi e é uma líder. Lutou pela justiça e pelas minorias. Lutou por quem não podia lutar por si. Ganhou mais voz depois que silenciaram a sua própria. Os números escravizadores mostram que antes de sua execução, a parlamentar tinha em torno de 4 mil seguidores na internet. Três dias após sua morte, ela já soma mais de 70 mil seguidores no Instagram, em torno de 130 mil no Facebook, 12 mil no Twitter e, como não se fala em outra coisa, a tendência é que estes números cresçam mais. Isso não me conforta. Não entendo porque é necessário morrer para realmente ser reconhecido, para ser considerado digno da luta coletiva. Basta desencarnar para ascender. Até então, quem sabia de Marielle? Os mais engajados, os mais próximos do cenário político da periferia, os parceiros de luta do dia a dia, os antenados. No entanto, sua ideia de justiça era grande e sempre foi de todos. E grandemente covarde foi o método de execução que escolheram na tentativa de exterminar suas denúncias. Porém grandes ideias, assim como grandes líderes, não morrem facilmente.

Aqui do meu canto, observo triste e assustada a maldade do poder. Demonstrações de força e repressão. "Incomoda? Vamos tirar do caminho!" Usam e abusam deste controle para provar que, segundo eles, somos apenas moscas enroscadas na teia do Sistema e podemos nos contorcer o que for, no fim das contas quem manda é a Aranha Rainha, detentora da porra toda. "Cala a boca aí, cambada!" "Quem manda nessa aqui somos nós!". Ouse contestá-los, cutucá-los, mexa nas estruturas e veja o que acontece. A verdade nua e cruel são os atos que vos falam. Esse é o recado explícito que a tragédia de Marielle nos deixa, que a agressão aos professores exemplifica. A vida humana não importa perante a engrenagem. Se eles agridem os educadores da nação e matam a quinta vereadora mais votada do segundo Estado mais competitivo do país, imagina só o que irão fazer com você, simples cidadão brasileiro? Não representamos nada para estes caras. Ninguém quer saber de educação. Uma sociedade educada não mata seus líderes.

Sendo assim, não temos a menor moral para rebater a chacota internacional. Merecemos, estamos fazendo por onde. Especuladores tirarão as mais peremptórias e unânimes conclusões sobre nossa situação e sobre nosso povo. Para eles, somos selvagens à procura de lei. E o que nós temos para oferecer, a não ser sangue e silêncio? Sangue de todas as cores, de todas as raças, de todos os gêneros, de todos os sexos. Sangue é sangue, assim como gente é gente. Nossa política de crimes é indefensável.

E nada, nada disso é novidade pra ninguém. O que me leva ao inevitável pensamento: onde estará o nome de Marielle Franco daqui pra frente, nos próximos meses, nos próximos anos? Nas páginas de um livro didático? Na retrospectiva anual de um telejornal? Nas lembranças do Facebook? Numa placa de rua ou num decreto de feriado do calendário? O mais importante: estará na sua memória quando chegar o momento de eleger o próximo governante na urna eleitoral? Ou faremos jus à fama de "esquecidinhos" e teremos mais uma amnésia histórica? Seremos fugazes e frívolos de novo? Se formos, a luta desta mulher e de tantos outros lutadores que já não estão mais aqui, terá sido em vão. Não devemos esquecer, não podemos esquecer. Esquecimento é conivência, silêncio é cumplicidade. Ame seu país, defenda seu povo, seja patriota. Isso nunca nos foi ensinado. Mas nunca é tarde pra aprender.

 

 

Beijos!!

 


Comentários desta notícia:


19/03, 07:30 h -Márcia Campos:

"Pensamento legal, orgulho. Escuto sua voz falando essas palavras. "



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