Tacy de Campos
Quinta, 20 de dezembro de 2018, 14:33 h - Atualizado em 20/12, 14:38 h

Cheiro de mãe

Realidade ou memória?

Tacy de Campos:Empresarial
Autor: Redação
Foto: Imagem da Internet

  

Não há melhor abrigo pra nascer de novo que a reconexão com a fragrância maternal. Todo mundo gosta, é instinto. Cheiro de mãe é o único cheiro que se deseja ter por perto toda a vida. A busca é inconsciente, incansável e vã.

 

No meu ponto de vista, parte dessa procura é na companheira. Num relacionamento a dois, a esposa se torna um pouco mãe. Ela reconstrói aquela ideia de lar da infância. Dessa vez, claro, você está ativamente dentro dessa reconstrução. Nada está lá pronto pra você chegar. Tem que ajudar a escolher a casa, os móveis, a decoração, a comida da geladeira e o bichinho de estimação. Dividir a despesa, a renda, o tempo e a experiência. A relação é outra, não há hierarquia filial. Aos poucos, você entende o valor de cada coisa e a razão de cada detalhe. Nada mais passa despercebido, nem dentro, nem fora. Remonta a si mesmo e, em outras palavras, “adultece”.

 

E há o cheiro. A essência que emana da companheira é um misto de odores maior do que se imagina. Ela é um pouco sua mãe, sua irmã, sua amiga, sua professora, chefe e cúmplice. E terá um aroma, unicamente. Quando eu a abraço, estou abraçando a minha memória maternal e delas. Chego a me confundir até, certas vezes. Me engano de propósito, pelo prazer infantil de sentir-se novamente dentro do casulo. Uma contínua tentativa de resgatar lembranças agradáveis dos carinhos da meninice.

 

Pela pouca convivência com meu pai na infância, o que mais recordo são os momentos com minha mãe. O quarto dela todo decorado de verde-água pra me receber da maternidade. As pantufas de coelho recheadas de bombom, presente de aniversário e Páscoa. Lembro dos jogos que ela me ensinou: ludo, loto, dominó, baralho. São meus passatempos até hoje. Por uns bons seis anos, fomos só nós duas, sem irmãos, pai ou marido. Tive esse privilégio e não vou mentir: ela era demais nessa época! Dava atenção, brincava, jogava, contava histórias, passeava. Foram muitas viagens, visitas ao museu, saída com seus colegas de faculdade, longas caminhadas (eu reclamava, mas ia), músicas, pão caseiro com café, tricôs, tapeçarias de ursinho, desenhos animados e muitos livros! Dentre todas as coisas que minha mãe me ensinou, a maior herança foi o gosto pela leitura.

 

Reconectando-me ao cheiro materno quando a visito hoje, dou-me conta da inevitável realidade. As fragrâncias dela e de Chrisce, por mais que eu queira, jamais serão iguais. E até esse cheiro que eu julgava ser tão dela, pertence só a minha memória. É uma ilusão, um apego pueril. Em mamãe, afora o corpo, nada mudou. Se alguém mudou, esse alguém fui eu.

 

Então que importa é que o abraço continue o mesmo: firme, macio, reconfortante. O abraço que eu mais anseio receberao final de um ano. Um feliz natal a todas as famílias e principalmente a todas as mães, com seus cheirinhos únicos de “lar doce lar”. 



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