Sábado, 11 de março de 2017, 00:00 h - Atualizado em 11/03, 03:30 h

Cuba, o país da paixão ou ódio

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Marcos Silva: Cultura


Foto: Marcos Silva

Por que um país tão pequeno - que deveria ser um ilustre desconhecido como El Salvador, Guatemala e Honduras -, desperta tanto amor ou ódio.

Curiosa a repercussão que o modelo político\econômico que esta pequena ilha desperta na população mundial. Todos têm uma opinião sobre o que é melhor para a ilha, sobre a condução e personalidade de Fidel, e claro, um amor declarado a Che Guevara.

 Cuba é uma ilha-nação do mar do Caribe, com população de 11 milhões de habitantes, território de 110.800 km², com o Produto Interno Bruto (PIB) aproximado de 51 milhões de dólares (U$ 4.500 per capita) e declarada república independente em 1902 (a última das Américas). A título de comparação, o Estado do Paraná tem 10,5 milhões de habitantes, território de 199.000 km², PIB aproximado de 85 milhões de dólares (U$ 8.000 per capita) e, como todo Brasil, independente desde 1822.

A Revolução de 1959 fez com que o atual modelo socialista fosse adotado pelo país. Hoje, o principal produto de divisas cubano é o turismo, que cresce vertiginosamente: dos 270 mil visitantes em 1989, para os aproximadamente 2,4 milhões alguns anos depois. Todos querem conhecer como esta pequena ilha (que poderia ter se transformado em um Haiti) vive ou sobrevive.

Para entender um pouco do dilema, temos que conhecer o modelo econômico adotado. O socialismo, surgido no final do século XVII da intelectualidade alemã, em particular de Karl Marx, Friedrich Engels e Henri di Santi Simon, defendia que este seria o modelo econômico a ser adotado após a ruína do capitalismo, dotando a sociedade de uma melhor organização das relações entre capital, trabalho e consumo.

Durante a primeira metade do século passado, muitos países adotaram o modelo e alguns, na sua versão mais radical, como o comunismo na Rússia, China e tantos outros. Como para mediar às tensões entre os agentes econômicos (trabalho, consumo, capital, propriedade, entre outros pontos) se prevê uma forte intermediação social e, por consequência, um estado uno, forte e autoritário, a grande maioria destes países caíram na armadilha do ditatorialismo, e, sem capacidade de lidar com o antagonismo do planejamento econômico centralizado versus democracia e liberdade social, o modelo foi à falência. Porém, temos outros países considerados capitalistas que adotaram fortes práticas socialistas e que são exemplos de sucesso, como a Holanda, por exemplo, mesmo sendo uma Monarquia.

Desta forma, também Fidel, Che, Raul e outros revolucionários entenderam que o sistema socialista seria um mundo correto. Na prática, adotaram o modelo ortodoxo. O trabalho é o eixo econômico, a propriedade é coletiva, o desenvolvimento econômico é planejado e centralizado, o direito coletivo está acima do individual. No caso de Cuba, não existe a propriedade particular; tudo pertence ao estado. O estado distribui o trabalho conforme as necessidades que a sociedade emana (alimentos, moradias, medicina, educação, lazer). Todos têm direito a moradia, educação, saúde, cultura, esporte, e mais uns trocados a “livre gasto”, dentro da possibilidade e qualidade que o estado dispor em gerar isto tudo. Inicia-se um dilema: se o país é rico, com recursos naturais, boa geografia, tecnologia a disposição, basta somente administrar bem os recursos. Mas não é o caso de Cuba: o país não possui petróleo ou minérios relevantes (como é o caso da Venezuela, Chile, e Brasil, por exemplo), sua geografia é extremamente deficiente (uma tripa de 1250 km de extensão por 100 km de largura) e, até a sua independência, era apenas mais uma colônia sem interesse de desenvolvimento a seu colonizador.    

Este é o quadro. Pode ser pior? Pode. Após a revolução de 1959, o governo de Fidel teve de enfrentar a desconfiança (pra dizer o mínimo) de seu vizinho EUA, que nutria interesses pela ilha e a tinha como extensão de solo americano. Além desse fator, diante das afinidades políticas que Cuba mantinha com o bloco Russo (como era de se esperar) os americanos se sentiam ameaçados. Após uma tentativa de montar uma base de mísseis russos em Cuba, em plena Guerra Fria, o governo americano decretou embargo comercial à ilha com adesão de todos os países da América, exceto Canadá e México. Mais dificuldades para um país que necessitava ser todo construído em 1961. Mas, para agravar a situação, em 1989, com a queda do comunismo no leste Europeu, Cuba perdeu seus parceiros comerciais além do mar. Para complicar ainda mais a crise, Fidel se desentende com os rumos da política de Gorbachev e perde toda a ajuda soviética, golpe brutal na combalida economia cubana. Durante essa fase, a população se viu em momentos difíceis entre os anos de 1989 a 1994, com ausência de alimentos, energia. Muitos fugiram para Miami. O caso foi destaque de vários noticiários pelo mundo.

Foto: Marcos Silva

A partir de 1996, pressionado pela crise, o governo adota medidas mais liberais. A visita do Papa João Paulo II em 1998 e investimentos em turismo definem um novo horizonte. Atualmente, mesmo com inúmeros desafios a serem vencidos, mas muito melhor que países de mesma estatura (ou maiores) do Caribe e Américas, vem tentando evoluir sem perder a identidade e conquista sociais.

E essas conquistas sociais não podem ser confundidas com liberdades sociais. O governo cubano priva seus governados de liberdades fundamentais a qualquer cidadão. Alguns destes direitos de ausência impensável para nós, como acesso á Internet, livros e ao conhecimento livre de uma forma geral, além da liberdade plena de ir e vir. O discurso defendido pelo governo é que estas liberdades poderiam expor os cidadãos á sedução do consumo e pôr em risco todo o planejamento econômico e conquistas sociais. Porém, do outro lado, dados do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) apontam Cuba como um fenômeno. Em 50 anos, desde sua revolução, saiu do que era (considerado um cassino falido dos EUA – sexo, drogas e máfia) para apresentar um IDH 51; índice de país desenvolvido, a frente de Brasil (84), Índia (134), China (101) e Bolívia (95). O analfabetismo foi erradicado antes da década de 60 (o Estado do Paraná, por exemplo anterior, ainda luta contra o analfabetismo estando hoje na casa dos 5%).

Para quem visita algumas observações são comuns. Havana, uma cidade de perto de dois milhões de habitantes, é o modelo. Uma população pobre, porém, não miserável. A cidade é relativamente limpa, pelo tamanho e recursos, muito mais que nossas cidades. Não há menores abandonados ou moradores de rua. As pessoas se apresentam de forma bastante humilde, porém com a aparência sempre saudável e sorridente. As habitações são sofríveis, porém similares a muitos bairros populares de nossa cidade. Vê-se por toda a cidade obras de reconstrução de prédios antigos e históricos.

Chama atenção também a ausência do universo de consumo que estamos acostumados. Na farmácia não existe propaganda de remédio ou laboratório. O médico receita e o farmacêutico atende. Outdoor encobrindo as fachadas de casas e prédios, só se for algum do Che, mas são raros. Supermercado e shopping não existem. Ninguém vende nada na praia, a não ser charutos ilegais (isso, em todo lugar tentam), e o comércio só te atende se o comerciante quiser ou tiver vontade, o que pode demorar o dia todo.

Porém, o que mais impressiona é a percepção que existem duas realidades em paralelo.  Uma a dos turistas, e a outra, da vida comum e cotidiana. As duas realidades existem sobrepostas e simultâneas uma a outra, porém não se fundem ou se comunicam, separas por uma sutileza inventada pelo governo chamada de CUC ou peso convertido (moeda dos estrangeiros/turistas).

 

Agora por que tamanha paixão em condenar ou defender o regime de governo cubano. Pode ser um mistério o motivo mais o sentimento existe, Mas uma coisa podemos afirmar com certeza: independente de Raul, Fidel ou outros, Cuba é um país lindíssimo e riquíssimo historicamente, como poucos no mundo. Viva ao povo cubano, com sua música única e sua agradável amizade. Por amor ou ódio, vale a pena ver e conhecer.

 

 

As opiniões aqui expressas são de responsabilidade do autor.

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Foto: Marcos Silva

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