Domingo, 26 de novembro de 2017, 13:03 h - Atualizado em 26/11, 13:08 h

Diz-que-diz-que com Paulo Leminski

Um bate-fio hipotético com um dos mais peculiares poetas brasileiros


Tacy de Campos: Cidades


Foto: Divulgação.

(Sentado na poltrona da sala. O telefone toca. Fulano atende).

-Alô? É você, professor? Quanto tempo!... E ai, como esta essa morte?! HAHA, brincadeirinha (risos do outro lado). Então, nada de novo? Ah sim, imagino... É, professor, aqui as coisas mudaram um bocado... Os anos 80 já eram... Aí no Além também??... Quem diria... Ominipresente, é sabão em pó ou nome de papelaria?... Ah, claro...A propósito, é céu ou inferno onde o senhor tá??... Não, não, 'senhor' é força de expressão...Tá bom, é melhor 'você'... Crise de meia-idade né?... Ok, vamos mudar de assunto...

-Por aqui? Ah, por aqui o negócio ferve! Se eu te contar, rapaz... Você realmente ficaria Loco Paca, poeta!... Quer mesmo saber?...Então, estamos no ano de 2017 e tudo gira em torno da comunicação. Temos a mais alta tecnologia a nosso serviço, para o bem e para o mal. Tá todo mundo 100% conectado, ligado,carregado e online nas máquininhas portáteis, os celulares... Não!!Nada parecidos com aqueles que tijolos que você usou um dia Polaco! Estes são feitos de vidro e plástico, finos e super-quentes, sensíveis ao mais leve roçar da ponta dos dedos... Portais pra outra dimensão? Não chega a tanto... Sim, cabem em qualquer lugar. Eles nos mostram o que quisermos em poucos segundos, nos remete ao que escolhemos, nos sugere imagens e palavras que nem sonhávamos existir. É o mundo de menos toque e mais touch, tchê! Até histórias podemos ler através desses celulares, acredita?... -Ah, os livros? Rapaz, não vou te enganar não Paulito, estão em má fase... muitas folhas e pouca relevância impressa nelas... Acredita que agora deram pra inventar escritores que não lêem livros?... É uma lógica improvável, absolutamente! ... Só imagine a qualidade, professor...

(Tosse. Toma água. Volta).

-Cinema? Olha, eu não vou muito mais ao cinema não, Polaco...

Não, eu gosto, claro, mas não sou fã... Eu sei que você é fã!... Ficção? Claro!... Paulito, hoje em dia, a ficção está, por primazia, em todos os âmbitos da vida... Sim! Sabe as películas americanas, aquelas que você ama?... Exato, imperam nossas telas de cinema, tv e computador. É difícil filmes que não sejam made USA. Até mesmo as produções de filmes brasileiros são dos americanos. E vão além, no dia-a-dia... Duvida?? Através destes filmes; a língua, o hábito e a tradição americanóide entraram em nossas casas, nas marcas dos produtos, nas estampas das roupas, nos aparelhos eletrônicos, na música, no jeito de cantar, nas gírias, no alfabeto. Estão por toda parte, como areia!... Enquanto você "haikai" ai no céu, o Tio Sam nos devora aqui embaixo, pequeno gafanhoto...

(Pausa para risos. Recupera o fôlego, retoma).

-Quê? Se as pessoas estão melhores?... Mas qual! Aqui é um novo planeta, Polaco, mas o homem é sempre o homem, só muda de endereço e forma. Hoje em dia as pessoas se encontram menos, se falam menos, se olham menos e se abraçam fortuitamente menos do que antes. E quando querem tudo isso vão a baladas, que são as antigas danceterias do seu tempo. Porém mais do que um espaço pra soltar a franga, baladas são sobretudo vitrines de corpos musculosos e bem definidos caçando sensualmente uns aos outros ao som de uma batida constante. A galera se beija, faz um love no escurinho e vai embora sem se apresentar... Já esperava por essa?? (incrédulo)...  Não, não são hippies. Digamos que é mais um modo de vida... Para homens e mulheres, a prerrogativa é a mesma: quanto mais melhor. Não há procura de compromisso. Qualidade não é prioridade pro jovem, vital e viril dessa sociedade. Os casamentos, por exemplo, podem durar dias ou semanas, não mais necessariamente anos. Deixaram de ser planejamentos a longo prazo e ninguém se segura por ninguém. Querem todos satisfação total e colecionar o máximo possível de experiências. Já é um ritual obsoleto, pra cair em desuso falta um cuspe... Haha! Futuro ousado, não?... 

(Pausa. Alguém está falando com Leminski do outro lado.Volta)

-Hum? Tão de ouvido comprido aí, professor? ... Ah, querem saber o que mais caiu em desuso? (malicioso)... Vamos lá: bibliotecas, locadoras, orelhões, telefones fixos... Hoje em dia tudo são as máquinas, Paulito. Máquinas para andar, dançar, exercitar, ler e escrever. Maquina de comprar, máquina de carregar o bilhete do metrô e o celular, de afinar instrumentos, lavar louça, roupa, de escutar musica, de tirar dinheiro, de fazer comida e de fazer amor. Pra quê contato humano, se tudo posso na máquina que me enriquece?... Pois creia! Nem perguntar o preço de um produto no mercado ou numa livraria  se precisa mais, pois há máquinas projetadas para poupar o tempo de uma sentença. E é aí que te lanço o enigma, meu caro, poupar tanto tempo para quê? Para enfim conhecer o vizinho, fazer uma nova amizade, flertar com alguém, marcar uma saideira ou uma pelada?... Hum? Praticar esportes? Haha, você é um judoca inocente, professor... (ruídos na linha) - Alô? Tá aí?... O que tem os insufladores?... Ah, eles se justificam, dizem que é pra poupar seu tempo da burocracia. Em outras palavras, gaste mais tempo com sua vida virtual do que com sua vida real. Poupe tempo e poupará dinheiro. Poupe, poupe e não viva... 

(Solta um arroto discreto, pede desculpa e toma água novamente. Volta)

-Tá comendo o quê?... Chineque ou poesia? HAHA!... Então, falando em mercado, as comidas do mundo moderno vão arrepiar todos os longos fios do teu bigode Loco Paca...  Você acha? Vai vendo! Nunca houveram tantos enlatados, congelados, prensados, pasteurizados, desnatados... Desnaturados? Claro que sim! Prazos de validade eternos. Você compra um produto hoje com vencimento para as suas bodas de prata! Conservantes e corantes para levar no caixão e sobra até pra próxima vida. Além dos preços exorbitantes que avançam anualmente rumo a estratosfera, a comida do "humanóide século XXI" é muito artificial... Sabor? Te embrulharia o estômago só o aspecto... Ah é, as daí também?... Realmente... Acha que não há coisa pior?? Mas tem! ... Chutou longe! A lingua portuguesa, caro professor, a lingua portuguesa embrulhará outras coisas além do teu bucho... Não sobrou haicai pra contar estória, ouve só! (toma fôlego) 

A linguagem, definitivamente, esta num processo radical de transformação. O período da última década foi absolutamente revelador neste sentido. Falo observando nosso idioma, mas te adianto que esta é uma metamorfose de nível internacional, inclusive porque, atualmente, quase nenhuma mudança consegue ser local, específica e isolada. O globo nunca esteve tão conectado e graças a essa conexão, estamos conectando nossas línguas. Acredito que dentro de mais algum tempo - talvez trinta, talvez cinquenta anos - a língua no planeta seja uma só para todos os povos... Radical? Exagero? Nem um pouco!... Pois falando de Brasil, a última revisão ortográfica fez desaparecer, de uma vez por todas e definitivamente, o trema e acentos desnecessários em diversas palavras que nunca precisaram de acentos de verdade. O texto corrido escrito hoje quase não precisa mais de vírgulas e pontos. Pra falar a verdade, ninguém mais escreve tecnicamente, a não ser quem vive de escrever por profissão e olhe lá!... (pigarreia) Qualquer mensagem rápida trocada por celular ou por papel, desrespeita concordâncias e sinais. As poucas palavras onde ainda restaram acentos, são esquecidas contumazmente... Pois é raro, professor... E devo dizer que o grande responsável por essa decapitação de pingos nos "i"s é a linguagem da internet. Num pequeno quadradinho com limite de caracteres, num site de bate-papo qualquer, você tinha que optar por escrever "vc" em vez de "você", e "gnt" em vez de "gente", se não, não caberia o texto inteiro. Ou então, você enviaria tudo fragmentado, frase a frase, para um impaciente destinatário. Logo, o que foi feito?... Exato! Mas a solução foi diminuir a qualidade de cada palavra, para caber uma quantidade maior de palavras, ao mesmo tempo, neste quadradinho. Entendeu?... Vixi! Aí, essa escrita foi ficando tão corriqueira na internet, e a internet foi se tornando tão intrínseca ao modo de vida das pessoas, que ao longo dos últimos dez anos, cruzou o portal de Nárnia e chegou aos cadernos dos alunos, ao jornalismo profissional e a maior parte das literaturas do país. Salva-se ainda uma dúzia de escritores da safra anterior a Era Globaltech. E não seria eufemismo se for mesmo uma dúzia...(risadinha cínica)... Hã?... O que é Nárnia? Vixi, longa historia... Os escritores?... Veja bem, Paulito, se por um acaso você concordasse comigo que o teu xará Paulo Coelho é um escritor ruim, deveria ler as pérolas desses últimos anos 2000... Perto deles, o Coelho é cult... (troca o fone de mão e arremata, exasperado) Haja culhões, professor, haja culhões!...

 



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