Sexta, 28 de julho de 2017, 10:56 h - Atualizado em 28/07, 11:01 h

O sobreiro e o mundo da bebida!

Por Jorge Marcondes


Coluna Papo de Piá: De Bem com a Vida


Foto: Divulgação.

Bom, após a maratona da semana passada, com a Noite das Artesanais na quarta-feira, degustação de cervejas caseiras na casa do amigo Ramiro, do DUM Day VII e no mesmo dia a festa de 20 anos do Crossroads, esta semana vamos com calma!!!

 

Você sabe o que é um sobreiro? Tem idéia para que ele é utilizado? Imagina qual a relação dele com o universo das bebidas? Então, ele significa muito para a cultura portuguesa e para o mundo das bebidas, então esta semana iremos falar um pouco dele.

 

O sobreiro é uma árvore do gênero Quercus, o que significa que é do mesmo gênero que o carvalho – no qual existem mais de 700 espécies. Estas são árvores que podem passar dos 200 anos de idade. Percebam que só por aí já dá para perceber que existe uma ligações muito forte com o mundo das bebidas e alimentos nobres.

 

Também conhecido como Carvalho-Alvarinho, o Quercusrobu, é mais utilizado na produção de barricas e ancorotes, pequenos barris utilizados para armazenamento de bebidas e, são muito utilizado na França. A título de curiosidade, o Quercusilex é também conhecido por Azinheira, e é aquele que produz o fruto do carvalho (bolota), que é mais doce e serve para alimentar os porcos Pata Negra, aqueles que irão dar origem ao famoso presunto cru espanhol de mesmo nome.

 

Ainda, ele é o ingrediente de alguns antigos doces portugueses, por serem adocicadas, ao contrário das bolotas dos outros carvalhos, que possuem um “certo” amargor. Assim, você pode observar claramente que a participação do carvalho na cultura portuguesa, e mesmo mundial de bebidas e alimentos, vai muito além da do simples uso da madeira para barris.

 

Mas, voltando ao Quercus suber ou Sobreiro, podemos dizer que ele é abundante em Portugal, desde os bosques naturais até aqueles formados pelo homem, e são chamados pelos portugueses, de “montado”. Estas árvores podem levar até 25 anos para ter a sua casca removida pela primeira vez, sendo que nessa primeira vez, depois de tanto tempo, o que se obtém é a chamada cortiça virgem.

 

Dá para começar a entender agora, onde iremos chegar? Porém, esta primeira casca só tem utilidade para a construção civil, pois gera um rendimento muito baixo, mas é uma etapa necessária no processo. Já no segundo corte o seu aproveitamento é melhor, porém ainda não pode ser utilizado para se fazer rolhas maciças, apenas aquelas aglomeradas.

 

É a partir do terceiro corte da casca do Sobreiro que é possível se obter rolhas, mas desde que esta casca tenha a espessura suficiente para tanto. Portugal restringe por lei o tempo entre cortes da casca do Sobreiro, para que a árvore tenha tempo suficiente para a sua regeneração. Esse período é de 9 anos entre cortes, para as árvores mais velhas e 12 anos para as mais novas, sendo que o período de corte é sempre no auge do verão, para que a casca se solte mais facilmente da árvore, evitando assim que a casca se parta irregularmente.

 

Uma árvore grande, acima de 40 anos, pode produzir até 45 kg de cortiça e, quando descortiçada por uma pessoa com prática, não causa qualquer dano ao sobreiro.

Foto: Divulgação.

As etapas de produção são as seguintes:

1.       após ser colhida, a placa de cortiça passa pelo “cozimento”, etapa na qual se procura limpar a madeira, bem como dar um certo amaciamento;

2.       a água usada para esse “cozimento”, deve ser devidamente sanitizada, bem como trocada com freqüência;

3.       neste momento as placas deixaram de ter aquele formato mais curvo da árvore e são prensadas, esticadas e selecionadas, para então serem cortadas em tamanhos ideais para serem trabalhadas;

4.       depois, as rebarbas e sobras do corte, serão utilizadas para as rolhas e outras composições feitas de aglomerado de cortiça;

5.       apenas as melhores cortiças é que serão usadas para a extração das rolhas, que requerem um corte cilíndrico dentro da cortiça;

6.       uma máquina, através de leitores ópticos e por peso; irá fazer uma separação inicial destas rolhas, por qualidade, sendo esta etapa seguida por uma seleção manual.

 

A qualidade destas rolhas é determinada pela porosidade e qualidade do material, sendo elas divididas em:

  • Aglomerada: aquela feita com as serragens e restos de cortiça, homogêneas em tamanho e, após serem coladas juntas e em formato de placas, são cortadas no formato final de rolha. Quando bem produzidas, podem chegar a 4 anos de durabilidade com facilidade;
  • Aglomerada 1+1: aquelas que seguem o mesmo processo de produção da anterior, porém possuem um ou mais discos de cortiça maciça na extremidade que ficará em contato com o vinho, ou ainda, em ambas as extremidades. Esse disco de cortiça é comum nas rolhas para champagne e outros espumantes, pois aumenta bastante a qualidade da vedação e a durabilidade da rolha;
  • Grade 3: aquelas que são maciças e apresentam bastante porosidade, mas que não comprometem a sua vedação. Elas podem durar até uma década, bem como custar cerca de R$ 0,50 cada;
  • Grade 2: rolhas maciças que apresentam um grau intermediário de porosidade, cuja durabilidade pode chegar a 15 anos e custar perto de R$ 2,00 cada;
  • Grade 1: as melhores que você pode encontrar no mercado. Normalmente são produzidas a partir de cortiça extraída de sobreiros mais velhos, bem como geralmente mais compridas também. Estas rolhas quase não possuem porosidade e pode manter uma garrafa bem vedado por mais de 2 décadas, com certa facilidade e seu preço pode atingir R$ 3,00 cada.

 

É claro que, devido ao aumento da produção mundial de vinhos, ao fato de a rolha ser um produto de uso único na vedação de garrafas, bem como devido ao sobreiro levar 20 anos para começar a produzir, é possível se observar o aparecimento de rolhas com materiais alternativos para suprir a demanda.

 

A cortiça é usada desde muito antes de termos garrafas de vidro para o armazenamento de bebidas, pois existem exemplares muito antigos que comprovam o uso de cortiça para vedação, inclusive de ânforas de barro para água ou vinho. Estes exemplares encontram-se no museu arqueológico de Lisboa. Portugal sozinho é responsável por mais de 50% da produção de cortiça no mundo, sendo o sobreiro considerado uma das jóias da agricultura portuguesa.

 

O charme e a qualidade das rolhas naturais agregam muito valor e qualquer bebida, principalmente à cerveja, pois uma bela garrafa de champagne com sua rolha e gaiola dá um que especial.

 

Cheers e até a semana que vem!!!


Autor:

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Jorge Marcondes

Administrador, consultor, professor e produtor de cervejas artesanais de panela!!!


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