Quinta, 21 de junho de 2018, 08:47 h - Atualizado em 21/06, 08:49 h

Precisamos aprender a enterrar nossos mortos

O texto a seguir é uma ficção. Mas qualquer semelhança com pessoas ou fatos reais, não é mera coincidência.

Tacy de Campos:Empresarial
Autor: Redação
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Vidas acabam. É o ciclo natural das coisas. Você, meu herói da TV e dos comerciais, se foi sem avisar e sem dizer adeus. Você que moldou meus pensamentos e por vezes foi guia das minhas atitudes pueris da adolescência; você que ocupou a maior parede do meu quarto repleto de pôsters, em sua pose mais famosa, simplesmente desapareceu. Não te verei mais nem pelas antenas, nem pelo streaming, nem a uma légua de distância de um palco, nem sequer ao vivo. Sua voz calou e há em mim um luto infinito, um vazio e uma incompreensão. “Por que tão cedo?”, me pergunto incrédulo. Todo mundo diz “ah que pena, tão jovem”. Não posso acreditar! É muito mais que o fim de um ícone, é o fim de um ciclo. Eu nego. Eu tenho raiva. Passam os dias, os meses, os anos, as décadas e eu aprendo a me acostumar. Pra te conservar melhor, imortalizo sua lembrança na minha memória mais gloriosa, como um bibelô na estante. Não consigo gostar de outros artistas, nenhum deles tem a sua irreverência, a sua voz ou o seu talento. E em nenhum momento eu dou o braço a torcer e paro de comparar. Vejo imitadores de você, mas não aprovo nenhum. Estou agora na busca pelo substituto do meu herói finado. Afinal, alguém precisa ocupar o lugar dele, o posto esta vazio. Ajo como se existisse um pódium ou uma competição entre os artistas (e no mundo da arte realmente há!). Ouço a comoção geral dizer: “Ah, era um talento, mas tão perdido!”, “Uma pena ser um viciado”, “Que poeta genial, que voz, mas como pôde se entregar assim?” Como eles, eu também julgo e desaprovo meu ídolo, claro, embora o que saiba sobre ele seja tão pouco ou quase nada mais que a maioria. Mesmo assim, julgo ser mais especial e perspicaz porque sou fã. E sendo fã, tenho toda a desculpa do mundo para ser abusado e fuçar todos os detalhes do meu amor platônico. Num lugar obscuro de mim, não aceito outro, quero aquele herói. Então eu o substituo por artistas similares. A maioria deixa sempre aquele gostinho amargo de “ah, se fosse Fulano...”. Afim de saciar momentâneamente a nostalgia incurável, ouço seus discos, revejos as fotos dos milhões de shows que você fez, fuço vídeos de entrevistas antigas na internet, descubro músicas inéditas, vou a shows covers e descubro que como eu, muitos outros estão órfãos de você. Fã-clubes então são organizados, num gesto ritualistico de idolatria e santificação do seu nome. Você não é mais só um artista, você é do povo, você é o nosso herói. E mesmo tendo consciência de sua morte, o mantemos em vida a qualquer custo!

Um belo dia encontramos alguém que lembra desesperadamente você! Um indivíduo que se fantasia de você e nos convence que estamos novamente diante de Sua figura. E mesmo correndo o risco de ignorar toda a lógica de sua morte, não conseguimos conter a emoção do ressucitamento. A tal ponto, que esquecemos que este indivíduo existe para muito além de nossa imaginação. Só conseguimos enxergá-lo como o substituto-perfeito para a obsessão-perfeita. Explicitamente, passamos por cima de toda e qualquer individualidade que esta pessoa possua. As qualidades particulares que a tornam um indivíduo único, como cada um de nós, é ignorada contumazmente. “Que me importa seus pensamentos, suas ideias, sua poesia ou música? Não não não! Só estamos interessados em quem você representa para nós, não em quem você é”. Poucos de nós estarão dispostos a conhecer este individuo mais profundamente e menos ainda os que gostarão realmente de saber qual a sua identidade. Como marionetes, somos orquestrados pelas mãos da Maquinaria, incentivadora tenaz da nossa compulsão pelo passado, e manipuladora habilidosa em sua arte de manter o Substituto sendo sempre o Substituto e nada mais. Para que ele nunca seja mais que a sombra de alguém. Para que ele seja enterrado em vida! E assim, a Maquinaria promete resgatar o idealizado passado de nossa geração, a custa da boa vontade, ás vezes esperteza, outras vezes necessidade, dessa nova safra ansiosa por oportunidades de um lugar ao sol. A não ser que este cidadão possa representar, em sua arte, um real interesse para a Maquinaria, ele jamais sairá da esfera social a qual foi condenado. Este é o recado. O ritual mais primordial depois da vida, é a morte. Deixemos que ela aconteça, enterremos nossos mortos e não nossos vivos.

 

 



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