Um pouco da história do mercado de cerveja artesanal nos Estados Unidos

Hoje resolvi abordar um pouco da evolução do mercado cervejeiro artesanal nos EUA, pois existem fatos relevantes a serem observados e que ajudam a pensarmos na evolução do nosso mercado também.

Apesar das maluquices de hoje, as cervejas ácidas com adição de frutas e as Imperial Stouts envelhecidas em barris de Bourbon, a produção de cerveja americana inicialmente foi baseada na tradição europeia de cervejas utilizando-se somente os quatro ingredientes básicos (malte, lúpulo, levedura e água), pois chegaram com os imigrantes alemães e tchecos. Estas cervejas aparentemente eram saborosas e produzidas com maltes e lúpulos de qualidade.

No momento em que terminou a Lei Seca (16/01/1920-05/12/1933), a cerveja americana perdeu completamente a sua qualidade, pois o milho e o arroz foram os substitutos dos maltes, que acabaram se tornando as cervejas “lite” (leve) das grandes corporações. Este tipo de cerveja foi destinada a acompanhar o jantar dos americanos, enquanto assistiam a TV.

Então, nos últimos 50 anos é possível observar o surgimento de uma nova indústria que está tentando combater as grandes corporações que dominam a América. Personagens como Frederick Louis “Fritz” Maytag III (Anchor Brewing Company – San Francisco), Ken Grossman (Sierra Nevada Brewing Company – Chico, na Califórnia) e Jim Koch (Boston Beer Company – Boston).

Estes novos fabricantes valorizavam o sabor, os perfis de lúpulo e a regionalidade, fato que fez com que essas cervejas passem a ser admiradas pelo mesmo tipo de consumidor que já adorava os alimentos que eram elaborados de maneira artesanal e independente.

Fritz Maytag, bisneto de um magnata de eletrodomésticos e filho de um fazendeiro de laticínios de Iowa, graduou-se na Stanford e com seus trinta anos, deu início a uma busca por uma indústria na qual pudesse deixar a sua marca pessoal.

 

Fonte: https://www.anchorbrewing.com/.

Foi então, por volta de 1965, que ele ouviu falar que a Anchor Brewing Company, cervejaria que produzia a sua cerveja favorita, a Anchor Steam, estava prestes a fechar as portas. Então ele resolveu investir alguns milhares de dólares para adquirir uma participação de 51% dela.

 

Inicialmente pensou apenas em aconselhar financeiramente, mas ao perceber que a cervejaria estava quebrada ficou chocado. Desta maneira, sabendo da compra os credores logo começaram a se aproximar dele com diversas promissórias que possuíam.

Maytag decidiu imediatamente concentrar sua atenção no aumento da qualidade da cerveja, isso foi em 1965. Ele deu início à elaboração de um impressionante portfólio com diversos estilos de cerveja que não existiam na América, como por exemplo:

  • Anchor Porter (1972);
  • Christmas Ale (1975);
  • Liberty Ale (1975), considerada como a primeira Indian Pale Ale (IPA) moderna, do país.

 

À frente de seu tempo e, com muita persistência, pois levou quase uma década, Maytag conseguiu finalmente obter algum lucro e muitos seguidores.

Devido à Lei Seca, a fabricação caseira de cerveja acima de 0,5% de teor de álcool era ilegal, portanto havia somente algo em torno de 89 cervejarias no país. Foi então que em 1978 o Congresso Americano aprovou uma lei (HR 1337) revogando restrições federais e impostos sobre o homebrewing (produção caseira) para uso pessoal ou familiar, mas não para a venda.

Boston Beer Company

 

Fonte: http://www.bostonbeer.com/our-company/brands.

Foi em 1984 que Jim Koch começou com a Boston Beer Company, cervejaria produz a cerveja Samuel Adams, sendo um dos destaques a Utopias, cerveja com 28% ABV, 45 IBUs e 175b calorias. Koch chegou a lançar ações na Bolsa de Valores de Nova York em 1995 e, atualmente, ele é um bilionário.

Em 1997 havia aproximadamente 1.400 cervejarias nos EUA, mas investidores e executivos de finanças gananciosos querendo ganhar dinheiro da noite para o dia produziam cervejas muito ruins, fazendo com que na década seguinte inúmeras cervejarias fechassem e pouquíssimas fossem abertas.

Foi aí que as microcervejarias que tiveram sucesso focaram em dar nova cara para o mundo antigo, pois os novatos dos anos 90 reinventaram totalmente a roda, indo aos extremos com cervejas incrivelmente lupuladas ou muito alcoólicas ou repletas de ingredientes excêntricos, ou ainda, lançando mão das três coisas ao mesmo tempo.

DogFish

Fonte: https://www.dogfish.com/brewery/tasting-room/on-tap.

Uma das pioneiras foi a Dogfish Head que iniciou suas atividades em 1995, sendo uma das primeiras a utilizar damascos, algas, ervas, especiarias e até mesmo lagostas cozidas. Outra foi a Stone Brewing que iniciou em 1996 em San Diego County, que ficou famosa por suas bombas de lúpulo com nomes muito ousados, tais como a Arrogant Bastard e a Ruination.

Já as cervejarias Russian River e The Lost Abbey são menores e ajudaram a trazer os geeks – gíria inglesa e sinônimo para nerd ou que se refere a pessoas peculiares e/ou excêntricas, fãs de algo – para o mundo das cervejas artesanais, pois eram pessoas que gostavam de colecionar cervejas, tanto quanto gostavam de bebê-las.

Estes foram os eventos principais na cronologia de desenvolvimento do mercado americano e mostra um pouco do que podemos observar atualmente no Brasil.

Tomara que consigamos chegar logo ao amadurecimento do mercado daqui, como foi nos EUA. Muito em termos de legislação também deve ser revisto aqui para que exista um fortalecimento das micro e pequenas cervejarias, mas alguns passos já foram dados nos últimos anos.

 

Espero que vocês tenham gostado.

 

Para este final de semana, busquem informações sobre alguns belos eventos ligados às cervejas artesanais. São eles:

 

Um lugar que vale a pena ser visitado. Local bacana, com excelente atendimento e bastante espaço. O atendimento é excepcional, pois o Márcio é muito criterioso.

Mutumzeiros

Uma festa para lá de bacana e que merece ser prestigiada, principalmente para aqueles que gostam de bastante amargor. Uma cerveja da qual eu gosto muito, produzida por amigos que sabem brincar com os insumos. O local eu vou conhecer e depois conto para vocês!

Bora lá para a diversão???

Cheers!

 

Jorge Marcondes e analista de sistemas por profissão e especialista em tecnologias educacionais, graduado e mestre em administração de emprceesas, professor de graduação e especialização no ensino presencial e a distância, degustador contumaz e apaixonado por cervejas artesanais e caseiras. Colunista do portal VRNews desde 2014 e agora do Expresso Livre, abordando o universo das cervejas caseiras e artesanal.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui